Certamente você já deve ter visto algum quadro de arte com uma imagem dentro de uma imagem que por sua vez está dentro da mesma imagem, de modo que se a cena vai se repetindo em proporções menores, não é mesmo? O que você talvez você não saiba é que isso se constitui uma técnica antiga na história da arte que possui, inclusive, uma nomenclatura própria: mise en abyme.  O post de hoje tratará desse tema, confira a seguir.

O que é mise en abyme?

O termo “Mise en abyme” ou “narrativa em abismo”, em tradução livre para a língua portuguesa, foi cunhado pela primeira vez pelo escritor André Gide que se referia, na época, às narrativas que contém, dentro de si, outras narrativas. O conceito, segundo a teoria da literatura, designaria textos que produzem uma reduplicação especular, parcial ou total, de conteúdo. Como exemplo, tem-se o livro As mil e uma noites em que uma narrativa é “encaixada” a outra.

Outra boa exemplificação visual disso são as famosas caixas chinesas ou as bonecas russas, também chamadas de matrioskas.

 

O mise en abyme na pintura

Na pintura, o mise en abyme ocorre quando uma obra tem dentro de si uma cópia menor da mesma obra de modo que é possível ver um quadro dentro de um quadro. Nesse sentido, a técnica compreende em colocar a cena em abismo, causando um efeito especular na obra. Para isso, um elemento que é muito utilizado é o espelho.

Um dos quadros mais famosos com esse recurso estilístico é a tela As meninas, do pintor espanhol Diego Velázquez. A pintura é de 1656 e está, atualmente, no Museu do Prado em Madri. Nela, podemos ver que o pintor está pintando um outro pintor que também está pintando, isto é, “ o pintor pinta o pintor que pinta”. Tem-se, assim, uma imagem duplicada de si mesma e nossa visão é colocada em abismo.

O casal Arnolfini, de Jan van Eyck, pintado em 1434 é também um importante quadro quando se pensa nessa técnica.

O espelho no centro da tela revela uma cena peculiar. Veja em detalhes:

 

 

Veja a seguir outras belas obras que se valem deste efeito visual.

 

Díptico de Martin Van Nieuwenhove, de Hans Memling.

Atente para o reflexo no espelho em que se pode ver duas personagens nas janelas.

O Banqueiro, de Quentin Metsys

Como dissemos, o espelho é muito utilizado na técnica do mise en abyme. Note que nessa tela há, inclusive, um convexo que reflete, tal como na obra de Memling, um personagem na janela.

Contemporaneamente, o mise en abyme tem sido muito utilizado em fotografias e propagandas comerciais, o chamado “efeito droste”.  Mas isso é tema para outro post.

Até lá!